Era numa linda manhã. A vida transcorria igual, sem novidade. De repente se ouve um som estridente que vem de algum lugar. Todos olham para o céu como se algo de grandioso estivesse para acontecer. Avistam 6 aviões que fazem voos rasantes sobre as casas e árvores. Isto não era comum! E ficam observando. E param com seus afazeres, como que se deliciando com um espetáculo diferente e bonito. Eram os cadetes da Base Aérea de Canoas que faziam seu último treino, com exercícios e manobras, pois no dia seguinte aconteceria o encerramento do curso de piloto e receberiam o brevê. E aquele ruído muito forte chamava atenção de todos. E lá no alto do céu muito azul, continuava o voo das 6 aeronaves. De repente, quando sobrevoavam a Av. Militar em direção a Av. Moreira Paz, em meio as manobras, um dos aviões, perdendo altura, separa-se dos outros e vem em direção as casas e ao chão, como buscando um lugar para pousar. E assim, mesmo em voo rasante, consegue sobrevoar a rua, hoje Av. Moreira Paz e passar por sobre as casas. As pessoas ficam paralisadas. Não conseguem nem ao menos imaginar o que está para acontecer.
Havia nos fundos da casa do Sr. Diniz Soldatelli, onde mais tarde foi a Volkswagen, um mato de bracatinga. Ele estava bem ali neste momento, embaixo das árvores e a tudo assistia. O avião bateu na copa das árvores e foi em direção ao solo, já desgovernado. Passou por uma taipa que separava os terrenos e deu de bico e com muita força numa pedra que ali se encontrava. A pedra era enorme, mas estava soterrada só aparecendo uma pequena parte. O choque foi tão devastador que arrancou o bloco inteiro virando-o ao contrário dentro do próprio buraco. O impacto contra o solo produziu uma nuvem de poeira e fumaça tão intensa quanto o estrondo que apavorou a população e gerou uma corrida em massa de todos quanto, movidos pela curiosidade, queriam ver de perto o que tinha realmente acontecido e que abalou a tranquilidade da pacata Vacaria. O pequeno avião estava dividido em 3 pedaços e no meio dos destroços, o corpo do piloto.
O seu Álvaro Rigon e o seu Diniz foram os primeiros a chegar. Crianças que jogavam bola ali perto, também foram se aproximando. O Dr. Caetano Peruchin era um dos guris, e lembra deste dia. O Tazinho Bueno estava na janela, de pijama, pois ainda era cedo, quando avistou o avião caindo e ouviu o tremendo estouro. Pulou a janela e foi até o local. Conta ele que ao chegar avistou o Dr. Rui do Prado Barcelos com o piloto do colo e saia sangue pela boca do acidentado. O Paulo Roberto Paim Borges, embora fosse muito pequeno à época, lembra-se deste dia, pois acompanhou toda a movimentação da janela de sua casa. O João Carlos Zingalli disse que ainda traz na memória este fato inusitado e que nunca esqueceu o nome do piloto, o que prova a intensidade da emoção e do trauma sofrido por todos, principalmente pelas crianças.
Logo chegaram também os outros pilotos cadetes que haviam deixado seus aviões no campo de Aviação, como era chamado o aeroporto.
O jovem piloto, morreu na hora. Seus restos mortais foram acondicionados na lona do paraquedas. Os cadetes, assustados e traumatizados, não queriam mais pilotar suas aeronaves e os instrutores de Canoas foram chamados para tomar as providências legais que o caso exigia e para convencer os jovens pilotos que o trágico acidente, embora muito triste e dolorido, não deveria impedir o curso de suas carreiras.
Examinando os documentos e papéis que se encontravam no bolso da farda do piloto foi encontrada uma carta da noiva, confirmando sua presença na cerimônia de formatura. A noiva ninguém ficou sabendo quem era e o piloto não recebeu o brevê e nem encontrou a noiva, sendo levado embora tão anonimamente como quando chegara. A população de Vacaria, em romaria, visitava o local, como para se certificar de que tudo aquilo tinha realmente acontecido.
Os restos do avião foram levados para POA de caminhão. Por muitos dias, a criançada do bairro arrumou divertimento procurando cacos de vidro e minúsculos pedaços do avião que ficaram espalhados entre as árvores e próximos ao local da queda. Até pouco tempo, quem passasse pela Rua Cel Avelino Paim podia observar na beira da rua, onde hoje existe uma casa de pedra, uma cruz de ferro que marcou por décadas o local da queda do avião, tragédia que ficou marcada para sempre na memória dos vacarienses.
E é o seu João Zingalli, que ainda guarda na memória as marcas deixadas pelo acidente que revela a identidade do piloto. Seu nome era Irineu Carlos Tamanini.
Após transcorrer muitos anos deste fato, e com poucas notícias sobre este trágico acidente ao longo de todo este tempo, através de pesquisas e entrevistas chegamos até o sr. Irineu Henrique Tamanini, sobrinho do piloto falecido. E foi através de suas palavras que conseguimos maiores informações sobre o piloto e o acidente. Segundo registros, Irineu Carlos nasceu no Espirito Santo, em Itarana, em 5 de novembro de 1927 e faleceu em acidente aéreo em Vacaria, no Rio Grande do Sul, em 4 de julho de 1947. Tinha apenas 20 anos de idade. Do Espirito Santo foi para o Rio de Janeiro, logo em seguida foi morar em São Paulo e depois em Canoas (RS) onde completou o curso de piloto de caça do Quadro de Oficiais da Aeronáutica. Não havia a Academia de Pirassununga na época. E, no blogdotamanini, do sr. Irineu Henrique Tamanini, encontramos o registro deste fato, segundo a versão conhecida por ele.
Diz ele: Meu tio Irineu Carlos tinha um amigo inseparável- nome ?. Iriam receber o brevê de pilotos na mesma cerimônia. No entanto, dias antes, o amigo ficou doente e não pode completar o número de horas exigidos para receber o diploma. Meu tio não teve dúvidas: fez um voo até Vacaria em um avião Vultee. O VULTEE BT-15 era um avião para dois tripulantes, destinado ao treinamento básico de pilotos. Voou pela primeira vez em 1940 nos EUA. Foi adquirido pela Força Aérea Brasileira em 1942 e voou até 1956. Por ironia do destino, o avião de caça NAAT 6 – prefixo NAAT 6D 1329 teve uma pane e ele foi obrigado a pousar de emergência. Não obteve êxito e faleceu na queda. Mais tarde, no Rio e Janeiro, seus irmãos Walter e Waldemar, passaram a integrar a primeira turma de paraquedistas do Exército. Irineu Carlos, lamentavelmente, já havia falecido. Eu, Irineu Henrique Tamanini, nasci no Rio de Janeiro em 15 de janeiro de 1955. Meu pai queria colocar meu nome em homenagem ao meu tio: Irineu Carlos Tamanini. Minha mãe não aceitou. Decidiram então que meu nome seria Irineu Henrique Tamanini.
Vacarianos no mundo
Texto de Arlete Medeiros de Abreu
