No dia de hoje (04.07.2026), há 79 anos, em uma linda manhã de sol de uma sexta-feira meu tio e cadete Irineu Carlos Tamanini, de 19 anos, pilotava um avião Vultee BT-15 da Força Aérea Brasileira (FAB), destinado ao treinamento básico de pilotos, entre a Base Aérea de Canoas e a cidade de Vacaria, o Rio Grande do Sul. Por ironia do destino, o avião de caça NAAT 6 – prefixo NAAT 6D 1329 teve uma pane e ele foi obrigado a pousar de emergência. Não obteve êxito e faleceu na queda. No dia seguinte meu tio iria receber o brevê de piloto de caça da FAB. Na verdade, ele não precisava ter feito esse voo de treinamento porque obtivera o número de horas necessárias para receber o brevê. Por que? Meu tio Irineu Carlos tinha um amigo inseparável de sobrenome Prestes. Iriam receber o brevê de pilotos na mesma cerimônia, dia 5 de julho de 1947. No entanto, dias antes, o amigo ficou doente e não pode completar o número de horas exigidos para receber o diploma. Meu tio não teve dúvidas: fez um voo até Vacaria usando o nome do amigo. Conclusão: nenhum dos dois recebeu o brevê juntos.
O acidente fatal ocorreu quando meu tio sobrevoava a Av. Militar em direção à Av. Moreira Paz. Em meio às manobras o seu avião começou a perder altura, e segue em direção às casas e ao chão, como buscando um lugar para pousar. E durante um voo rasante, consegue sobrevoar a rua, hoje Av. Moreira Paz e passar por sobre as casas. Várias pessoas, principalmente crianças que jogavam futebol em um campinho improvisado, ficam paralisadas. Não conseguem nem ao menos imaginar o que iria acontecer. O avião bate na copa de uma árvore típica da região de nome Bragatinga, das regiões mais frias do sul do Brasil e que é muito aproveitada para lenha e para a construção e mobiliário.
Havia nos fundos da casa do sr. Diniz Soldatelli, onde mais tarde foi a Volkswagen, um mato de bracatinga. Ele estava bem ali neste momento, embaixo das árvores e a tudo assistia. O avião bateu na copa das árvores e foi em direção ao solo, já desgovernado. Passou por uma taipa que separava os terrenos e deu de bico e com muita força numa pedra que ali se encontrava. A pedra era enorme, mas estava soterrada só aparecendo uma pequena parte. O choque foi tão devastador que arrancou o bloco inteiro virando-o ao contrário dentro do próprio buraco. O impacto contra o solo produziu uma nuvem de poeira e fumaça tão intensa quanto o estrondo que apavorou a população e gerou uma corrida em massa de todos quanto, movidos pela curiosidade, queriam ver de perto o que tinha realmente acontecido e que abalou a tranquilidade da pacata Vacaria. O pequeno avião estava dividido em 3 pedaços e no meio dos destroços, o corpo do piloto.
O seu Álvaro Rigon e o seu Diniz foram os primeiros a chegar. Crianças que jogavam bola ali perto, também foram se aproximando. O Dr. Caetano Peruchin era um dos guris, e lembra deste dia. O Tazinho Bueno estava na janela, de pijama, pois ainda era cedo, quando avistou o avião caindo e ouviu o tremendo estouro. Pulou a janela e foi até o local. Conta ele que ao chegar avistou o Dr. Rui do Prado Barcelos com o piloto do colo e saia sangue pela boca do acidentado. O Paulo Roberto Paim Borges, embora fosse muito pequeno à época, lembra-se deste dia, pois acompanhou toda a movimentação da janela de sua casa. O João Carlos Zingalli disse que ainda traz na memória este fato inusitado e que nunca esqueceu o nome do piloto, o que prova a intensidade da emoção e do trauma sofrido por todos, principalmente pelas crianças.
Logo chegaram também os outros pilotos cadetes que faziam vôos de instrução junto com meu tio. Eles pousaram no campo de aviação, como era chamado o aeroporto local. O jovem piloto, morreu na hora. Seus restos mortais foram acondicionados na lona do paraquedas. Os cadetes, assustados e traumatizados, não queriam mais pilotar suas aeronaves e os instrutores de Canoas foram chamados para tomar as providências legais que o caso exigia e para convencer os jovens pilotos que o trágico acidente, embora muito triste e dolorido, não deveria impedir o curso de suas carreiras.
Examinando os documentos e papéis que se encontravam no bolso da farda do piloto foi encontrada uma carta da noiva, confirmando sua presença na cerimônia de formatura no dia 5 de julho. A noiva ou namorada do meu tio ninguém ficou sabendo quem era. Seu corpo foi levado embora tão anonimamente como quando chegara. A população de Vacaria, em romaria, visitava o local, como para se certificar de que tudo aquilo tinha realmente acontecido.
Os restos do avião foram levados para POA de caminhão. Por muitos dias, a criançada do bairro arrumou divertimento procurando cacos de vidro e minúsculos pedaços do avião que ficaram espalhados entre as árvores e próximos ao local da queda. Um desses meninos era Roberto Krause (já falecido), que anos depois se tornou diplomata e veio a trabalhar no cerimonial do entao presidente da República, Fernando Collor. Ele mesmo me disse que estava próximo ao local no dia do acidente. Até pouco tempo, quem passasse pela Rua Cel Avelino Paim podia observar na beira da rua, onde hoje existe uma casa de pedra, uma cruz de ferro que marcou por décadas o local da queda do avião, tragédia que ficou marcada para sempre na memória dos vacarienses.
E é o seu João Zingalli, que ainda guarda na memória as marcas deixadas pelo acidente que revela a identidade do piloto. Seu nome era Irineu Carlos Tamanini. MeuIrineu Carlos nasceu em Itarana, no Espirito Santo, em 5 de novembro de 1927. Seu corpo foi levado da Base Aérea de Canoas para a Base Aérea do Rio de Janeiro. foi enterrado no Cemitério São Joao Batista, em Botafogo, na Cripta dos Aviadores, construída pela Aeronáutic para lembrar detalhes da vida de seus heróis e ídolos .
Durante toda a vida meus avós e pais de Irineu Carlos Tamanini ( Eugênio Tamanini e Maria Lina Nippes Tamanini) nunca aceitaram a perda do filho tão novo. O futuro piloto de caça da FAB tinha três irmão, todos já falecidos: Walter José Tamanini, o Bubi; meu pai Waldemar Henrique Tamanini e minha tia Nélia Sandy da Cunha.
Descansem em paz. É o que desejam do fundo do coração Irineu Henrique Tamanini, meus filhos e netos.
