Por Ernani Buchmann, advogado, jornalista, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras do Futebol e presidente da Academia Paranaense de Letras.
Entre 1992 e 1993, Galvão Bueno deixou a Globo para fechar com a CNT, rede paranaense de televisão que estava tentando se estruturar em nível nacional, graças à amizade do seu diretor, o deputado federal José Carlos Martinez, com o então presidente Fernando Collor. A cereja no bolo eram as transmissões da Copa Libertadores, cujos direitos tinham sido adquiridos por Martinez.
Galvão veio de mala e cuia para Curitiba. Trouxe sua família quase toda rubro-negra, com os três filhos ainda menores de 20 anos, incluindo o tricolor Kaká, e alguns profissionais. Alugou bela casa nas imediações do parque mais frequentado da cidade e enturmou-se no ambiente do futebol local.
Aos domingos à noite ia ao ar um programa esportivo na CNT em que Galvão era a principal atração. Entre os integrantes da mesa, os comentaristas curitibanos Barcímio Sicupira, ex-atacante de Botafogoe Athletico, e Raul Plassmann, ex-goleirode Flamengo e Cruzeiro. Depois todo mundo jantava no restaurante Porão Italiano, aproveitando permuta entre a rede e a cantina.
Numa daquelas noites em que eu tinha participado do programa, Sicupira passou a cantar suas artimanhas com jogador de truco. Era o melhor do mundo, não perdia há não sei quantos anos, suas façanhas eram conhecidas nos quatro cantos do planeta.
Galvão ficou curioso sobre o jogo, quis aprender. Ensinamos as regras básicas e formamos as duplas: Sicupira/Raul x Ernani/Galvão. Combinei alguns sinais com meu parceiro e encaramos o autointituladomonstro – Raul era menos pretensioso.
O jogo foi pau a pau. Digo melhor, paus a paus – em referência ao maior naipe dobaralho de truco. Galvão, como um aprendiz disciplinado, jogava de acordo com as instruções que eu lhe passava, por meio de sinais.
No fim, prevaleceu a dupla azarão, sob protestos de intransigente Barcímio, alegando uma irregularidade qualquer. Como não havia VAR, nosso último ponto quedou validado. Vencemos os maiorais.
À época, meados de 1993, Galvão nos contou que estava sendo assediado para voltar à Globo. A CNT passava por dificuldades, para receber o salário e dos profissionais que havia levado, sua mulher, tesoureira da trupe, era obrigada a fazerplantões intermináveis na porta do departamento financeiro.
Era o fim do devaneio do Batatinha, apelido do dono da CNT. Galvão aceitou a proposta milionária (em torno de R$ 400 mil/mensais, isso há 33 anos) e voltou para a emissora do Marinho.
Não sei se um dia Galvão jogou outra partida de truco, nem se narrou algum clássico como aquele. Se narrou, deve ter dito “haja coração!” algumas vezes.
Se não jogou, pode se orgulhar da própriainvencibilidade, e para orgulho do Kaká, tendo como parceiro este apaixonado torcedor do Fluminense.
