Todo ano, no fim de junho, a cidade italiana de Trento – antes de ser anexada, Trento pertencia à Áustria onde morava a minha familia- elege o pior político do ano. Não com urna. Com julgamento público.
Durante o festival Feste Vigiliane, realizado em homenagem ao santo padroeiro da cidade, São Vigílio, acontece o chamado Tribunal de Penitência, uma encenação completa com juiz, promotor e advogado de defesa fictícios que avaliam as piores condutas das figuras públicas locais.
O veredicto é anunciado com cerimônia. O condenado sabe que vai molhar. O culpado é colocado dentro de uma gaiola metálica, içado sobre as águas do rio Adige e mergulhado três vezes consecutivas nas correntes geladas, exatamente como era feito no passado.
O rito tem nome. Chama-se La Tonca. A prática tem origem entre os séculos XIV e XVII, quando a punição era aplicada de verdade a blasfemadores e condenados por crimes considerados graves na época. O condenado era trancado numa gaiola e lançado ao rio Adige pelas torres do Castelo do Buonconsiglio.
A diferença é que hoje ninguém se afoga. Na versão moderna, o mergulho é rápido e simbólico. O condenado é içado de volta com vida e a multidão acompanha tudo em clima de festa e bom humor.
Antes de ser atirado ao rio, o político condenado tem o direito de subir à ponte e discursar longamente para a multidão, dizendo tudo o que pensa sobre a cidade, seus eleitores, seus críticos. Um castigo medieval transformado em válvula de escape coletiva.
As Feste Vigiliane foram retomadas em 1984 e desde então mantêm o ritual como um dos momentos mais esperados do calendário cultural da cidade.
Em Trento, accountability não é só um conceito de gestão pública. É uma tradição com gaiola, rio gelado e plateia.
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