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Seleção, frevo e cerveja

O texto é de autoria do meu amigo e tricolor das Laranjeiras, advogado, jornalista e presidente da Academia Paranaense de Letras, Ernani Buchmann:

Em julho de 1969, antes da seleção brasileira disputar as eliminatórias para a Copa de 1970, o time comandado por João Saldanha disputou três amistosos encadeados no Nordeste: em uma semana enfrentou a seleção baiana na Fonte Nova (vitória de 4×0), a sergipana em Aracaju (8×2) e a pernambucana na Ilha do Retiro (6×1). Alguns registros situam o jogo no Arrudão, erradamente. Logo depois, viajou para a Colômbia e deu início à campanha arrasadora que nos levaria ao Mexico e ao tricampeonato.
Naquele dia 13 de julho, chegamos cedo à Ilha, eu e Rolando Lavareda, amigo e quase ex-futuro concunhado. Cedo significa 11h da manhã, embora o jogo iniciasse às 15h30. Levamos alguns sanduiches e refrigerantes – e escolhemos bons lugares bem no meio das arquibancadas. Os frevos pernambucanos animavam o público:Vassourinhas, Evocação nº 5, Madeira que cupim não rói e outros.
O estádio foi enchendo, enquanto o público ia nos apertando. A expectativa era grande, a Feras do Saldanha estavam na boca do povo: Felix, Carlos Alberto, Brito, Joel e Rildo; Piazza e Gerson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu.
Quando faltavam uns 30 minutos para começar a partida, entra no estádio um sujeito com um amigo. Olhando para cima, onde não cabia mais uma sardinha que fosse, ele foi pedindo licença e escolheu um não lugar entre dois torcedores. Mexeu a bunda para lá, para cá e quando conseguiu se acomodar, chamou o amigo para sentarali. Levantou-se, fez a mesma coisa uns degraus acima e se sentiu o rei da esperteza. Então gritou para o seu acompanhante:
– Eu não disse que ia dar?
Foi o suficiente para despertar o ódio dos torcedores de Náutico, Sport e Santa Cruz. Recebeu uma saraivada de laranjas na cabeça, nas costas e, de quebra, uns saquinhos repletos do líquido amarelo que a boa educação manda se referir como urina. Concentrado de mijo, no linguajar do povão.
Mas ele não sossegou. Entre os degraus trafegavam vendedores de cerveja, levando engradados nas costas com garrafas das grandes, aquelas de 650 ml. Sempre havia, no degrau superior, quem se se esticasse para furtar uma ou outra. Nem sempre dava certo, o vendedor sentia o balançar do engradado e reprimia o crime.
Mas o já mijado espertalhão arriscou e se deu bem. Depois de esperar o cervejeiro se afastar, pegou a garrafa e tentou abrir com os dentes. Tenta daqui, tenta dali a garrafa quebrou – e fez um buraco na bochecha do cidadão.
Recebeu uma imensa vaia enquanto cuspia sangue nas costas do vizinho em frente. Tomou uns bofetões e não se mexeu mais até o fim do jogo.
A seleção venceu com três gols de Edu, um de Pelé, outro de Tostão e do sexto gol já não lembro do autor. Mas lembro que Saldanha mandou entrar, no segundo tempo, o goleiro Lula, então no Corinthians, em homenagem à torcida pernambucana. Conhecido como Lula Monstrinho quando jogava no Naútico (foi hexacampeão pernambucano pelo alvirrubro), era um festejado ídolo local.Foi aplaudidíssimo.
O futebol das antigas era bem jogado, tínhamos craques em todas as posições e gerava diversão para geraldinos e arquibaldos, como dizia o tricolor Dennis Menezes – ou foi o Apolinho que criou essa expressão?

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