Adelino Dias Passos (avô da minha saudosa mãe, Cely Passos Flores e depois de casada trocou Flores pelo sobrenome do meu saudo pai, Waldemar Henrique Tamanini) era maçom (Grão-Mestre). Quando ele morreu em Pirai (RJ) o neto Jonas Passos e a prima de Jonas, Regina Silvia Passos estavam, como o restante da família, em sua casa para o velório. Os dois tiveram dificuldades porque o padre da cidade se negou a dar a extrema-unção alegando que meu bisavô era maçom. A história da maçonaria no Brasil é rica e complexa, envolvendo diversos momentos e personagens que marcaram a trajetória do país.
A maçonaria chegou ao Brasil no século XVIII, trazida por comerciantes e militares portugueses que eram membros de lojas maçônicas europeias. A primeira loja maçônica brasileira foi fundada em Salvador, Bahia, no ano de 1724, com o nome de Cavaleiros da Luz. Essa loja foi a precursora de outras que surgiram na colônia, especialmente nas regiões de maior desenvolvimento econômico e intelectual, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco.
A maçonaria teve um papel importante nos movimentos de emancipação política do Brasil, que antecederam a independência. Os maçons defendiam os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, inspirados pela independência das colônias inglesas da América do Norte e pela Revolução Francesa. Entre os movimentos que contaram com a participação maçônica, destacam-se a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1798) e a Revolução Pernambucana (1817), todos reprimidos pelas autoridades portuguesas.
A independência do Brasil de Portugal foi decretada e solicitada a Dom Pedro I em uma sessão maçônica realizada em 20 de agosto de 1822, na loja Comércio e Artes, no Rio de Janeiro. Essa loja foi fundada em 1815 por Joaquim Gonçalves Ledo, considerado o arquiteto da independência, que enviou uma carta ao príncipe regente, seu irmão maçom, instigando-o a romper com a metrópole. Entre os maçons que participaram da sessão, estavam José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da independência, e o próprio Dom Pedro I, que foi iniciado na maçonaria em 1822, com o nome simbólico de Guatimozim.
Após a independência, a maçonaria passou por um período de adormecimento, devido à repressão do governo imperial, que proibiu o funcionamento das sociedades secretas em 1822. A loja Comércio e Artes foi fechada e seus membros perseguidos. Somente em 1831, após a abdicação de Dom Pedro I, a maçonaria retomou suas atividades, sob o título de Grande Oriente do Brasil, que nunca mais suspendeu seus trabalhos. A partir de então, a maçonaria se tornou um participante ativo em todas as grandes conquistas sociais do povo brasileiro, fazendo com que sua história se confunda com a própria história do Brasil independente.
A maçonaria teve um papel fundamental na campanha pela extinção da escravidão negra no país, que durou quase todo o século XIX. Os maçons defendiam os princípios de liberdade e igualdade entre os homens, e lutavam pela emancipação dos escravos, que eram considerados irmãos. Entre as leis que foram abatendo o escravismo, paulatinamente, destacam-se a Lei Eusébio de Queiroz, que extinguiu o tráfico de escravos em 1850, e a Lei do Ventre Livre, que declarou livres as crianças nascidas de escravas a partir de 1871. Ambas as leis foram propostas por maçons: Eusébio de Queiroz, que era membro do Supremo Conselho do Grau 33, e o Visconde do Rio Branco, que era Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. O trabalho maçônico só parou com a abolição da escravatura, a 13 de maio de 1888, que contou com a assinatura da princesa Isabel, que era filha de Dom Pedro II, também maçom.
A maçonaria também teve um papel decisivo na campanha republicana, que pretendia evitar um terceiro reinado no Brasil e colocar o país na mesma situação das demais nações centro e sul americanas, que já haviam se tornado repúblicas. Os maçons defendiam os ideais de liberdade, democracia e progresso, e faziam propaganda dos benefícios da república, nas lojas e nos clubes republicanos, espalhados por todo o país. Na hora final da campanha, quando a república foi implantada, a 15 de novembro de 1889, ali estava um maçom a liderar as tropas do Exército com seu prestígio: o marechal Deodoro da Fonseca, que viria a ser o primeiro presidente da república e Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil.
Durante os primeiros quarenta anos da república, período denominado de República Velha, foi notória a participação do Grande Oriente do Brasil na evolução política nacional, através de vários presidentes maçons, além de Deodoro: Floriano Peixoto, Campos Salles, Hermes da Fonseca, Nilo Peçanha, Wenceslau Brás e Washington Luís. A maçonaria também apoiou a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, em 1917, ao lado das nações amigas, defendendo os princípios de liberdade e justiça.
A maçonaria continuou a exercer sua influência na história do Brasil ao longo do século XX, participando de diversos momentos históricos, como a Revolução de 1930, a Constituição de 1934, a Revolução Constitucionalista de 1932, a redemocratização de 1945, a Constituição de 1946, a Campanha do Petróleo é Nosso, a Campanha da Legalidade, a resistência à ditadura militar, a Campanha das Diretas Já, a Constituição de 1988, entre outros. Entre os maçons que se destacaram nesses episódios, podemos citar Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Teotônio Vilela, Miguel Arraes, entre muitos outros.
