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Geisel protegeu o comunista Fernando Morais

Essa história incrível foi contada no blog 247 pelo escritor e jornalista Fernando Morais, mineiro de Mariana e nascido em 22 de julho de 1946:

“Passei o ano de 1974 para 75 em Havana. Teve uma operação que nunca falei em público. Liguei de Lisboa para a direção da revista que eu trabalhava aqui no Brasil e avisei que tinha saído o vista que pleiteava há vários anos junto ao governo de Cuba. Queria saber se a revista se interessava pela matéria que estava propenso a fazer. Caso contrário, iria entrar de férias e faria a matéria de qualquer jeito. A revista se interessou e tive que fazer uma viagem torta porque Cuba estava muito isolada, muito ilhada, se me permitem a metáfora. Sai de Lisboa, fui para Bratislava, na antiga Tchecoslováquia, a fim de embarcar para Cuba. O avião saia de Moscou e era uma espécie de pau de arara marxista. O avião saia pinga pelos países da antiga Europa Oriental. Era um velho avião Ilyushin da Aeroflot. Era quase impossível chegar a Cuba. Era a mesma coisa que hoje você querer fazer um vôo para Jupiter. Lembro que de Bratislava o avião fez uma escala para reabastecimento em São Miguel dos Açores e depois fomos direto para Havana. Fiquei três meses, fiz a matéria e voltei a me comunicar com a revista. Nao tinha telefone direto de Cuba para o Brasil. Tive que me comunicar com Nova York com a correspondente Judith Patarra, que faleceu recentemente – ex-mulher do Paulo Patarra, outro jornalista da minha geração, também já falecido – e avisei à revista que tinha terminado estava pronto. Recebi o seguinte recado: vai para o México e fica hospedado no hotel tal … aguardando uma ligação nossa. Tinha muito poucos lugares onde você podia sair de Cuba e seguir para outro país. O México era um deles. Fiz uma parada em Kingston, na Jamaica. O primeiro-ministro era socialista, Michael Manley. A direção da revista voltou a ligar quando estava no México e informou que eu deveria seguir para Buenos Aires e ficar hospedado no hotel tal … Não lembro o nome do hotel para guardei o endereço: Calle Reconquista. Nova ligacao do Evaldo, diretor de redação da revista, informando que teria que fazer uma operação para voltar para o Brasil. Você tem que jogar fora o seu passaporte, jogar na sarjeta, vai no barbeiro, raspa a barba, procura um fotógrafo, tira uma foto sem barba, vai no Consulado brasileiro, procura o fulano de tal, que é o vice-consul e diz que você é turista, perdeu o passaporte e gostaria de renovar o documento. Foi uma das poucas vezes que fiquei sem
barba depois que fiquei adulto. Piquei o passaporte e fiz toda a operação que a redação me pedira. Consegui o novo passaporte e já no hotel em Buenos Aires recebo nova ligaçao. Disse o diretor: reservamos uma passagem na Cruzeiro do Sul, que era uma companhia de aviação que pertencia à Varig e que fazia vôos na América Latina. Você irá embarcar no vôo tal e eu nao sabia que o diretor de redação da revista foi para a capital da Argentina para se encontrar comigo. Ele veio no mesmo vôo mas em cadeiras distantes. Ele queria saber se iria entrar em segurança no Brasil porque achavam que o Exército iria me prender. Pelo menos a revista teria uma testemunha que estaria sendo preso ao chegar ao Brasil. A viagem foi tranquila, não tive nenhum problema, ninguém me importunou. Escrevi a matéria, o Henry Maksoud, dono da revista Visão, não gostou, resolveu não publicar e acabei sendo demitido. O problema é que eu precisava publicar o meu trabalho até para me justificar com a repressão de que eu não tinha ido para Cuba para fazer curso de guerrilha, apreender a tiro, nada disso. Consegui uma pequena editora, a Alfa Omega, que não existe mais, e que publicava textos de pessoas ligadas à esquerda – o editor era o Fernando Mangariello. Ele, que me estendeu a mão, mais na frente acabamos brigando. A vida prepara surpresas. O que tem de novo nessa história e que nunca contei: quem montou toda essa operação do meu retorno ao Brasil foi o general Ernesto Geisel, que era o presidente da República. Ele queria me proteger da extrema direita dentro do Exército que estava tentando derrubá-lo do comando do pais. Ele consegue enfrentar e demite o general Silvio Frota, que era o líder da extrema direita dentro do Exército que queria degolar o Geisel. O poder na época, Geisel, Figueiredo, Golbery, chamado de grupo de progressistas dentro das Forças Armadas ( imagine você que aos 80 anos de idade eu iria me referir ao grupo de progressistas dentro das Forças Armadas). O temor era que esse grupo usasse a minha impunidade de ir a Cuba como uma provocação e isso pudesse e isso se transformasse em um pretexto para encherem o saco dele, Geisel. O secretário particular do Geisel, Esmeraldo Barreto, uma espécie de seu filho adotivo, foi quem ajudou o presidente da República a montar toda a operação. Eu só vim a saber disso muitos e muitos anos depois. Era protegido pelo regime militar em 1976. Um ano antes eles tinha acabado com o Vlado, assassinado o Manoel Fiel Filho na cadeia. São as contradições. O Brasil é um país com contradições até na ditadura militar. O meu livro A Ilha foi um fenômeno.

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