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O pênalti do coronel e o cartão do presidente

O artigo “O pênalti do coronel e o cartão do presidente” é de autoria do juiz do Trabalho no TRT de Pernambuco, Marcílio Florêncio Mota e pai do zagueiro Nino, campeão da Taça Libertadores pelo Fluminense e atualmente jogando no Zenit da Rússia:

“Conta-se que, em Limoeiro, em Pernambuco, terra de coronel forte e juiz fraco, houve um jogo em que o árbitro marcou pênalti contra o time de Chico Heráclio.
O coronel entrou em campo.
Não precisava correr. Não precisava gritar. Bastava aparecer. Há homens cuja presença já carrega o peso de uma ordem. O árbitro, dizem, foi convencido de que havia se enganado. O pênalti, que era contra, passou a ser a favor. Em Limoeiro, naquele tempo, a regra do futebol talvez coubesse dentro do apito; mas o apito cabia dentro da vontade do coronel.
Lembrei-me dessa história ao saber que, muitos anos depois, em outro cenário, outro homem poderoso teria falado com o chefe do futebol mundial sobre um cartão vermelho dado a um jogador de sua seleção. O cartão, que expulsara, foi suspenso. O atleta pôde jogar. A autoridade política, mais uma vez, parecia atravessar a linha lateral e pisar a grama.
Mudam os tempos, os estádios, os sotaques e os cargos. Mas permanece a velha tentação: a de fazer a regra se curvar diante de quem tem poder.
A diferença é que, no jogo seguinte, a bola não obedeceu. Os Estados Unidos perderam de 4 a 1 para a Bélgica. E ali houve uma pequena justiça poética. Pode-se conversar com dirigentes, pressionar com prestígio, insinuar influência. Mas ninguém manda na bola depois que ela rola. A bola é uma espécie de testemunha teimosa. Às vezes, ela desmente o coronel.
O velho Chico Heráclio talvez sorrisse. Talvez dissesse que faltou entrar em campo outra vez. Mas o mundo, ainda que lentamente, parece cansado dos homens que confundem autoridade com posse, liderança com mando, cargo com licença.
O futebol, como a vida pública, só sobrevive quando as regras valem mais que os poderosos. Quando não é assim, o jogo continua, mas perde a alma. E quando o jogo perde a alma, já não importa tanto o placar.
Porque pior que perder de quatro é vencer sem justiça”.

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