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Vacaria, terra onde nasceu Faoro e morreu meu tio

Meu saudoso tio, Irineu Carlos Tamanini, nascido em Itarana (ES), irmão do meu saudoso pai, Waldemar Henrique Tamanini, morreu aos 19 anos, em 1947, em Vacaria (RS), vítima de acidente aéreo. Era piloto de caca da Força Aérea Brasileira (FAB). Na mesma cidade gaúcha nasceu o mais importante presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o jurista Raymundo Faoro. Ele presidiu o Conselho Federal da OAB entre 1977 e 1979, marcando sua gestão pela atuação em favor da abertura política do regime militar, que governava o país desde 1964, pelo fim dos Atos Institucionais e pela anistia. Faoro foi o grande interlocutor da sociedade civil com o governo Geisel em prol da restauração do habeas corpus no episódio conhecido como Missão Portela. Também partiu de sua gestão frente à OAB a primeira grande denúncia circunstanciada contra tortura de presos políticos.
Foi durante seu mandato que a OAB aprovou a histórica Declaração de Curitiba, manifesto de repúdio da advocacia contra o estado de exceção e pela revogação dos Atos Institucionais, assinado ao final da VII Conferência Nacional da OAB, em 1978. Durante o evento, Raymundo Faoro, por intermédio do senador Petrônio Portela e do ministro Rafael Mayer, recebeu comunicado do general Ernesto Geisel que confirmava sua intenção de decretar a Lei de Anistia, como propugnava a OAB. A gestão de Faoro também atuou em outras importantes frentes, como a revogação da Lei de Segurança Nacional, a restauração do habeas corpus, das garantias plenas da magistratura, do respeito aos direitos humanos e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, precedida da abolição do AI-5.
Raymundo Faoro nasceu em 27 de abril de 1925, em Vacaria, no interior do Rio Grande do Sul, mudou-se na infância com a família para Santa Catarina e voltou às terras gaúchas para cursar direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 1951 foi para o Rio de Janeiro, onde fixou seu escritório e atuou como procurador do Estado até sua aposentadoria.
Além de jurista, foi um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros, autor de ensaios de direito e ciências humanas. Faoro publicou duas obras clássicas: “Os Donos do Poder”, um dos trabalhos mais importantes na área do ensaio brasileiro, e “A Pirâmide e o Trapézio”, no qual desvenda o pensamento de Machado de Assis como um autor indispensável para a análise do contexto político-social brasileiro durante a transição entre o Império e a República.
Faoro foi agraciado com a Medalha Ruy Barbosa, a mais alta comenda da advocacia brasileira, em solenidade realizada no Rio de Janeiro em 2002. Faleceu no dia 15 de maio do ano seguinte deixando um raro legado para a advocacia, as ciências sociais e o pensamento político brasileiro.

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