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A escritora, pintora e dramaturga Virginia Tamanini

Moderna, contemporânea e versátil. Assim é descrita Virgínia Gasparini Tamanini, escritora, pintora e dramaturga capixaba, autora do romance “Karina”, considerado um dos primeiros registros artísticos sobre a imigração italiana no estado. No Sesc Espírito Santo, que completa 80 anos em 2026, suas contribuições para a cultura não passaram despercebidas: desde 2014, o Centro Cultural Sesc Glória homenageia a intelectual com o Teatro Virgínia Tamanini, localizado no último pavimento do edifício.
Para a coordenadora de Cultura do Sesc-ES, Priscila Schimit, a autora se destaca por sua pluralidade, característica do espaço que leva o seu nome: “O Teatro Multidimensional do Sesc Glória leva o nome da Virgínia Tamanini em homenagem a essa profissional que foi uma erudita da literatura, uma figura ativa na comunicação e, sobretudo, uma dramaturga com produções relevantes na história das artes cênicas capixabas. Este espaço, que permite espetáculos experimentais e intimistas — com capacidade para 60 a 70 pessoas — é um palco contemporâneo que aproxima o artista da plateia e possui grande versatilidade de formatos”, explica a coordenadora.
O Teatro Virgínia Tamanini já foi palco de grandes espetáculos de música, dança e dramaturgia, incluindo ainda atividades formativas. Só no último ano, estiveram no palco artistas como André Prando, Luiza Boê, Ivna Messina, Nano Vianna e Paulo Beti, além de apresentações do Aldeia Sesc Ilha do Mel e do Palco Giratório.
Assim como o Teatro, a artista Virgínia também explorou diversas linguagens e formatos: publicou seu primeiro romance-folhetim, “Amor sem Mácula”, no jornal “O Comércio”, em Santa Leopoldina; escreveu peças como “Em Pleno Século XX”, “Amor de Mãe”, “Filhos do Brasil”, “O Primeiro Amor” e “Onde está Jacinto?”; foi autora de poemas como “Princípio e Fim”, além de livros como “Karina” e “Estradas do Homem”.
Outra característica que a aproxima do Sesc, é o fato de Virgínia não ter deixado de se reinventar após os 80 anos. Aos 82, ela pintou quadros como “Noites de São João”, “Vale do Canaã”, “Secagem do Café” e “A Fazenda do Meu Pai”, que retratavam cenas do cotidiano dos imigrantes italianos, eternizando memórias regionais.
Seu legado permanece vivo na família, que absorveu seus dons na pintura, escrita e atuação, como conta seu bisneto: “Ela sempre teve o dom de envolver as pessoas com a arte. Era autodidata; aprendeu a ler e a escrever sozinha, sem mestre ou escola, ‘fuçando’ a estante do pai, o imigrante italiano Epifânio Gasparini. Nisso, ela envolvia as filhas, que viam a mãe produzindo peças de teatro — muito disputadas na região do Vale do Rio Doce — e herdaram esse talento”, relatou Carlos Bruno Lopes Freitas.
Virgínia Gasparini Tamanini nasceu em 4 de fevereiro de 1897, em uma fazenda no Vale do Canaã, em Santa Teresa, filha dos imigrantes Giuseppe Epifanio Gasparini e Cattarina Cassandra Tamanini. Sem frequentar a escola formal, alfabetizou-se de forma autodidata com o apoio de familiares e professores particulares. Casou-se em 1915 com Lourenço Luiz Tamanini, comerciante de café, com quem teve sete filhos. Além de Santa Teresa, viveu no Rio de Janeiro, em Itapina (distrito de Colatina e onde nasceu Nélia Sandy Tamanini) e em Vitória, experiências que inspiraram suas obras ao longo dos anos.
Aos 67 anos, escreveu o romance “Karina”. A obra é considerada um marco em sua carreira, conferindo-lhe maior visibilidade nacional. “O livro retrata a história da mãe dela como imigrante chegando ao Brasil. Após sair de Santa Teresa, Virgínia morou em Itapina, onde conheceu novas paisagens e vivenciou as altas e baixas do ciclo do café, temas recorrentes em seus trabalhos. Mais tarde, passou a expressar essas vivências pela pintura, representando locais e situações com riqueza de detalhes”, conta o pesquisador e músico Victor Biasutti.
O pesquisador consultou artistas renomadas, como Ângela Gomes e Nona Rostagno, que atestaram a qualidade das telas, associando-as ao estilo naïf. “A pintura dela foi descrita como a de ‘um adulto pintando como criança’. Ela conseguia criar esses quadros sem nunca ter frequentado uma escola de artes ou recebido instruções técnicas. Isso era nato”, afirma Biasutti.
A artista faleceu em 18 de outubro de 1990, em Vitória, aos 93 anos. Sua memória, no entanto, permanece vibrante. “Virgínia continua moderna. Se estivesse aqui, estaria do mesmo jeito: produtiva e capaz. Ela é atemporal”, conclui Victor.

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