Há 80 anos, numa manhã de quinta-feira, dia 19 de março de 1936, o tio da minha mãe, Octávio Passos, matava o pai dela, Ary Flores, com dois tiros à queima-roupa com uma arma Smith & Wesssson calibre 38, na frente da sua casa, localizada na rua Barão de Pirahy (grafia da época) numero 82, em frente à subida da igreja matriz Sant’Anna. Na casa do atirador em Pirai residiam o próprio Octávio, lavrador e negociante, sua mulher Maria Araújo Passos e uma irmã dela, viuva, Margarida Meirelles. A mulher dele levou dois tiros nas pernas e a irmã dela, um tiro. Foram levadas para o hospital e sobreviveram.
O motivo foi passional: meu avô Ary Flores tinha ficado viúvo. Minha avó faleceu em casa, no dia 14 de setembro de 1935, às 21 horas, por tuberculose e astenia cardíaca. Octávio morava ao lado de Octávio e viajava com frequência a trabalho. Imediatamente, começaram os boatos dos vizinhos que ele tinha um envolvimento amoroso com a mulher do cunhado e também com a irmã dela. O fato foi confirmado por Octávio. Ele decidiu matar a mulher mas na hora que disparou a arma de fogo o meu avô entrou na frente dela e acabou assassinado. Octávio, que era filho do delegado da cidade, empresário com muitos recursos e avô da minha mãe, Adelino Dias Passos foi preso na cadeia de Piraí. Maria Araujo se separou imediatamente de Octavio, saiu de Pirai e nunca mais foi vista. As únicas informações são de que ela foi morar em São Paulo.
Com essa tragédia, minha mãe ficou órfão aos 5 anos e 6 meses e o meu tio Celmo com 3 anos e 5 meses. Os meus avós maternos estão enterrados no cemitério de Piraí. A partir das duas tragédias, minha mãe Cely e meu tio Celmo passaram a viver na casa do avô, Adelino Dias Passos, portugues de nascimento, que, além de delegado, era maçom, donos de terras ao redor de Pirai onde cultivava arroz e café, dono de posto de gasolina e gerente do único banco existente na cidade. Os dois estudaram em escolas públicas no primário e foram cuidados por duas tias solteiras, filhas de Selene e Polida, filhas de Adelino. Aos 14 anos, minha mãe Cely veio morar na cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Vaz Lobo, na casa de dona Silvia, uma amiga de sua mãe.
No colégio Republicano, de Vaz Lobo, estudou até a 4ª série ginasial. Não chegou a cursar o científico. Fez o então chamado curso comercial. O uniforme era uma saia verde e camisa branca. Terminado o curso conseguiu um emprego na já extinta Joalheria Monroe, localizada na rua 7 de setembro com Uruguaiana, no centro da cidade. A joalheira ficava localizada em frente à loja Cavé. Os donos eram seu Alexandre e o irmão Alberto. Minha mãe Cely trabalhava no caixa. Diariamente, de segunda a sábado, ela saia de casa em Vaz Lobo e ia no trem parador da Central do Brasil para o trabalho.
Em um sábado, por volta das 12 horas, do dia 19 de novembro de 1949, com 18 anos, estava voltando para casa de trem, com duas amigas. quando trocou olhares com um jovem que estava em pé no trem, da mesma idade. Era meu pai, Waldemar Henrique Tamanini, que morava com os pais em Quintino e voltava para casa após cumprir o horário de trabalho na Columbia Companhia de Seguros de Vida, que funcionava no edifício Andorinhas, que anos mais tarde pegou fogo , em uma das maiores tragédias do Rio de Janeiro. Antes de trabalhar na Cia de Seguros, meu pai foi trocador de ônibus na linha Marechal Hermes-Cascadura. A empresa pertencia a uma cooperativa de ônibus e tinha sede em Vila Valqueire.
O casamento dos meus pais ocorreu quatro anos depois, no dia 19 de dezembro de 1953. Eu nasci, na cidade do Rio de Janeiro, em 15 de janeiro de 1955.
